Quando eu morrer voltarei para buscar Os instantes que não vivi junto do mar
INSCRIÇÃO de Sophia de Mello Breyner
Mar, metade da minha alma é feita de maresia Pois é pela mesma inquietação e nostalgia, Que há no vasto clamor da maré cheia, Que nunca nenhum bem me satisfez. E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia Mais fortes se levantam outra vez, Que após cada queda caminho para a vida, Por uma nova ilusão entontecida.
M A R de Sophia de Mello Breyner
Aqui nesta praia onde Não há nenhum vestigio de impureza, Aqui onde há somente Ondas tombando ininterruptamente, Puro espaço e lúcida unidade, Aqui o tempo apaixonadamente Encontra a própria liberdade.
LIBERDADE de Sophia de Mello Breyner
Marcámos a areia com as nossas pegadas, sabendo que não resistirão à proxima maré epercebemos quão efémera é a nossa passagem.Passeamos pordunas em movimento constante e em ondulada harmonia com o imenso mar. Sentimoscom cadaonda o chão a estremecer e o ar a encher-se da espuma que cobre com um manto branco a areia molhada.
Palavras avisadas as de alguém que me disse um dia que as coisas que mais gostava eram a LUA, o MAR e a LIBERDADE... Sempre que passeio junto aomar sinto que são autênticas estas palavras. Quando como ontem, espero junto ao mar pelo últimosuspiro do astro-rei e assisto à lenta aparição da linda Luasinto no odor fresco do vento o sabor salgado da liberdade.
Sim. Estou aqui. Ainda estou onde me deixaste. Ainda ando por cá. Ainda sinto a tua luz e quero dizer-te que cada vez está mais forte. De cada vez que te fito, fico por mais tempo com os olhos cegos de branco, cheios de luz e de paz. Quero dizer-te que não adianta esconderes-te por trás dessas ameias porque a tua luz atravessa-as. O granítico muro é vidro para o teu brilho. A barreira de pedra é como um filtro que deixa passar para cá mas que não deixa que nós, simples mortais passemos para aí a nossa energia volátil. O que seria se pudéssemos tocar na luz? O que seria se o calor te aquecesse? Será que poderíamos trocar por momentos de estádio? Como quem pisca os olhos e passa para outra dimensão? Como quem espirra e não pode evitar fechar os olhos? O que seria se estivesse ao nosso alcance iluminar a terra, o pó, os grãos de areia, o chão, e do que restasse, queimar a pele de quem nos visse. Marcar como tu marcas, em tons de ouro. E como num sonho de criança espalhar reflexos de felicidade, rasgando as sombras e abrindo os horizontes de luz por entre a escuridão. O que seria se já estivessemos preparados para brilhar? A vida é como uma escola. Uns são rápidos a aprender, outros levam mais tempo. Lá chegaremos...